Gerações (13) – Fernando Andrade

“O acontecimento do 25 de Abril de 1974 e o surgimento da televisão nos lares alterou muito os hábitos e os comportamentos existentes”

Quando e onde nasceu? Conte-nos como foi, de uma forma resumida, o seu crescimento.
Nasci em 26 de Maio de 1958, ou seja há 61 ano,s em São Roque, Ponta Delgada. Nasci em casa do meu avô materno e a minha saudosa mãe foi assistida pela Senhora Luísa Teixeira, uma parteira reconhecida. Sou o primeiro de uma família que teve seis filhos, sendo os três primeiros do sexo masculino. Na altura não havia acompanhamento de genecologia nem se nascia nos hospitais ou clínicas. Dizia-me a minha mãe que durante a sua gravidez foi visitada algumas vezes pela parteira com quem tinha uma relação de confiança, que já tinha muita experiência até de partos considerados difíceis.
Ainda muito criança, e em idade pré-escolar, os meus pais mudaram-se para Alameda de Belém na Fajã de Baixo e lá vivi até aos 24 anos, altura em que casei. Mudei novamente de casa, mas mantive-me na Fajã de Baixo num bairro conhecido como Calço da Furna. Quando fiz 48 anos, voltei às minhas origens, residindo até agora numa moradia espaçosa num aldeamento conhecido como Manguinha e no qual gosto muito de viver. 
Depois disso, fiz, ainda na Fajã de Baixo, a chamada escola primária – o ensino obrigatório era só até à quarta classe –, vindo posteriormente frequentar o chamado ciclo preparatório (5º e 6º ano no antigo edifício da Escola Industrial junto ao Mercado da Graça) e mais tarde vim para a Escola Domingos Rebelo para frequentar o Curso Comercial. Surgiram na altura os cursos complementares que davam equivalência ao 7º ano do Liceu e, como gostava de ser contabilista, ingressei no Curso de Contabilidade e Administração que terminei em 1976. Eu não era um aluno brilhante, mas tinha classificações acima da média, algumas vezes integrando o que chamavam quadro de honra. 
Entretanto, pressionado pela minha mãe, tive a intenção de emigrar para fugir à guerra colonial, mas tendo surgido o 25 de Abril em 1974, e tendo terminado o envio de tropas para o Ultramar, já não fazia sentido. Como os meus pais tinham seis filhos e a Universidade dos Açores ainda estava numa fase de instalação, tive que começar a trabalhar uma vez que para eles era incomportável suportar os custos dos estudos em Portugal Continental. Ingressei no serviço militar obrigatório, tendo sido incorporado em 1979, em Mafra, para frequentar o curso de Oficiais Milicianos, o qual terminei com bom aproveitamento e recebi um louvor no final. Fui convidado para ingressar na Academia do Exército, mas o que me fascinava era ser contabilista e não a carreira militar.

Que tradições/costumes da nossa terra recorda do seu tempo de infância que hoje já não se celebrem da mesma maneira ou de todo? 
Quando criança e adolescente, os hábitos e costumes eram completamente diferentes do que hoje acontecem. O acontecimento do 25 de Abril de 1974 e o surgimento da televisão nos lares alterou profundamente os hábitos e os comportamentos existentes. Recordo-me que ao Domingo íamos à missa de manhã e após o almoço em família íamos ver o futebol no campo Jácome Correia ou à matinée ver um filme no Coliseu ao fim-de-semana. Algumas vezes íamos ver o hóquei no recinto do Clube União Sportiva e já com 18 anos passei a ir à soirée ao Teatro Micaelense. Já havia periodicamente alguns bailes no Solar da Graça, mas era preciso ir de fato – o Senhor Vítor Cruz não deixava entrar de outra forma – e ter algum dinheiro, o que só tive após começar a trabalhar. Não havia dinheiro, nem a cultura de almoçar ou jantar no restaurante. Recordo alguns destes eventos com alguma saudade porque hoje nada disto existe. 

Comparando com a geração dos dias de hoje, na sua opinião que diferenças existem em relação à geração em que nasceu?
Hoje tudo é diferente. A internet veio democratizar o acesso a muitas solicitações e eventos. A utilização do telemóvel e das redes sociais vierem alterar completamente os comportamentos e vida das pessoas. Vulgariza-se a palavra amigo por alguém com que trocamos mensagens e em muitas situações as pessoas nem se conhecem nem alguma vez estiveram juntas. Acho exagerado chamar amigo a alguém com trocamos mensagens e comentários. Por outro lado, exagera-se na exposição perdendo-se privacidade com a publicação de assuntos pessoais e algumas vezes até íntimas. A geração dos meus filhos é completamente “teledependente”. Podem chamar-me “démodé”, mas não subscrevo a utilização das redes sociais para certos fins. 

Que evoluções e alterações tem notado no mundo de trabalho desde que começou a trabalhar até àquilo que é hoje a sua realidade profissional? 
Aos 18 anos comecei a trabalhar em Ponta Delgada, numa empresa comercial que vendia electrodomésticos que pertencia ao Senhor João Oliveira Carreiro, pessoa muito conhecida e estimada e que mais tarde veio a ser meu sogro. Assistia-se à implantação do serviço de televisão a preto e branco nos Açores e a procura era superior à oferta. Os aparelhos da marca Grundig eram importados da Alemanha e cada encomenda, mesmo quando chegava de avião, levava mais de um mês. Quando chegavam, estavam já muitos vendidos e era só entregar. Mas a minha inclinação sempre foi mais para os registos contabilísticos do que para a parte comercial propriamente dita. 
 Em 1982, fiz um exame “ad-hoc” para ser Técnico Oficial de Contas (era assim que se designavam na altura os contabilistas das empresas do grupo A) e fiquei aprovado. Desde esta altura, portanto há 37 anos, que executo contabilidades. Era tudo executado manualmente em suporte de papel e praticamente os empresários só tinham contabilidade porque eram obrigados para entregar às Finanças.
Nestes 37 anos, como em outras profissões, muita coisa mudou, mas a maior dificuldade que os contabilistas e os empresários têm prende-se com as constantes alterações fiscais, sempre com o objectivo de o Estado arrecadar mais receita. 
Entretanto, em Setembro do ano 2000, com o apoio e insistência da minha mulher, tornei-me empresário, tendo fundado em sociedade com ela a empresa TELITAL, ligada ao sector da comercialização dos electrodomésticos, actividade que temos vindo a alargar a outros sectores e sempre com resultados económicos positivos. Possuímos lojas nas ilhas de São Miguel, Terceira, Faial e Pico.
Em 2015, aproveitando o crescimento do sector imobiliário, fundamos outra empresa, a FRIJOC – Investimentos turísticos, Lda., que entretanto já evoluiu para outros negócios designadamente para o aluguer de viaturas sem condutor (Rent a Car) em São Miguel e na Ilha do Faial. Possuímos também imóveis para arrendamento e alojamento local. Ao todo as nossas empresas empregam 28 trabalhadores efectivos. 
Mas o mundo dos negócios é sempre uma incógnita. Para além de ser necessário ter perfil e saúde para aproveitar as oportunidades é necessário ter uma componente que eu considero muito importante: sorte. Para mim, este é o factor mais importante para ter sucesso nos negócios e reconheço que em algumas situações tenho sido bafejado pela sorte.

As viagens são uma parte importante da sua vida? Que viagens mais gostou de fazer e que outras sonha realizar?
Até aos 55 anos fiz muitas viagens algumas vezes só, outras acompanhado da minha esposa. Fazia 6/7 viagens por ano para países do continente Europeu, Americano e Asiático. A viagem que mais recordo foi uma volta ao mundo de avião, tendo passado por Londres, São Francisco, Havai, Tóquio, Nova Iorque, Frankfurt, entres outras cidades. A partir daí, tenho tido menos disponibilidade e já não sinto tanto apetite pelas viagens longas. Faço normalmente uma viagem anual para o estrangeiro e faço outras mais curtas dentro do país, aproveitando algumas deslocações profissionais. Gostava ainda de fazer uma viagem à Austrália, mas vamos ver quando tenho disponibilidade de tempo para a concretizar. 

Que relação estabelece diariamente e actualmente com a sua família? Sente que hoje tem mais tempo para lhe disponibilizar? 
A relação com a minha família é da maior proximidade, o que só vivendo numa ilha se torna possível. Tenho dois filhos, o Ricardo e o Rui, e mais recentemente uma neta que se chama Francisca. É um privilégio de quase todos os dias – salvo por motivos profissionais – poder ir almoçar em casa com a minha esposa e o meu filho Rui que ainda vive connosco. Ao jantar o ritual repete-se. Aos fins-de-semana costumamos almoçar e/ou jantar no restaurante.
Somos uma família numerosa, ou seja tenho mais cinco irmãos todos vivos e com filhos e residimos muito próximos uns dos outros. O meu pai faz amanhã, 10 de Junho, 85 anos e à semelhança do que fazemos em anos anteriores juntamo-nos todos, filhos, netos e agora bisneta, para festejar com ele o seu aniversário. A relação entre todos é muito saudável e é frequente partilharmos coisas boas e estarmos solidários em situações menos boas.
A minha saudosa mãe que a pessoa mais marcou a minha infância e adolescência, assim como a dos meus irmãos já não se encontra entre nós.

E os amigos que lugar têm na sua vivência diária? Relaciona-se com os seus amigos com maior frequência nos dias de hoje ou quando era mais jovem? 
Costumo dizer sobre amigos que são um capital que valorizo muito e que não dispenso. Não tenho muita quantidade, mas tenho muito boa qualidade de amigos. No entanto, ao contrário do que constato muitas vezes, não considero que todas as pessoas com quem convivemos são nossos amigos. Não é por ir almoçar ou jantar com alguém que é meu amigo. Os amigos são as pessoas que escolhemos para nos acompanhar, confiar e partilhar a nossa vida. Ao contrário da família, estes não são exclusivamente nossos, mas existe uma relação e amizade. 
Quando estou inspirado considero-me uma pessoa com humor suficiente para estabelecer relações de uma forma aberta e sem cerimónias Quando estou em dificuldade é também a eles que recorro a pedir ajuda.
Tenho amigos desde a frequência escolar, do tempo que prestei serviço militar e outros que fui encontrando-se em situações diversas da minha actividade profissional e social. Tenho espírito de grupo e facilidade em relacionar-me, convivo semanalmente em grupos em que estou inserido – alguns com mais frequência que outros. Participo desde há 10 anos na Marcha do Coriscos e também da marcha União de Vila Franca do Campo. Também sou entusiasta há alguns por fazer trilhos que vou fazendo aos Domingos de manhã sempre que tenho disponibilidade – ultimamente tenho estado ausente devido a uma lesão nos calcanhares – e tenho o privilégio de pertencer a um grupo chamado ENTAS, que para além de serem da parte lúdico/desportiva, sentimos entre todos um grande espírito de companheirismo e amizade muito saudável.

Como é a sua relação com a internet? Usa-a apenas para o trabalho ou como forma de lazer também? Esta relação foi evoluindo ao longo dos tempos? 
Não sou um “expert”, mas não me considero um info-excluído. Por necessidade profissional mais de 80% do meu tempo laboral é na utilização do computador e também do telemóvel. Fui-me adaptando e evoluindo à medida que foram surgindo novas tecnologias de hardware e software, mas se pudesse dispensar a sua utilização não ficava nada chateado. Particularmente uso para fazer pesquisas, falar com alguém ou enviar mensagens, quando necessito.
Ao contrário das novas gerações que ficam presos aos tablets, telemóveis e consolas de jogos, gosto mais de tecnologias mecânicas do que electrónicas ou digitais. Prefiro lidar com ferramentas mecânicas.

De que forma se relaciona com os seus filhos e netos? Como procura acompanhar o crescimento de ambos com uma maior proximidade?
Tento fortalecer sempre a relação com eles e ajudá-los a seguir na sua rotina diária, transmitindo valores que tento preservar, mas também estabeleço limites, nego com frequência alguns pedidos e tento com frequência corrigir situações e comportamentos que os jovens por vezes descuidam. Devido à ocupação da minha actividade profissional nem sempre tenho a maior disponibilidade para lhes dedicar, mas quando acontece estar disponível tento compensar interagindo com momentos de abertura e de qualidade com eles. A minha neta só tem 10 meses, mas vemo-nos mais de uma vez por semana.

Como caracteriza o seu modo de vestir nos dias de hoje e na época em que estudava e que começou a trabalhar, por exemplo? 
Normalmente para trabalhar costumo vestir-me de forma mais formal. No pós-laboral e aos fins-de-semana prefiro jeans e roupa desportiva. Não sou dos que penso que o vestir tem a ver com a personalidade da pessoa. Visto-me algumas vezes de acordo com a conveniência do que vou tratar, mas a minha preferência vai para o informal. Apesar de nos últimos anos, isto é a partir da altura em que iniciei a minha atividade empresarial, utilizar com frequência roupas de marca, não sou fanático nem um seguidor acérrimo das tendências de moda. Nas estações de Outono/Inverno tendo preferência por cores escuras e na Primavera/Verão por cores mais claras. Quando estudava usava os que os meus pais podiam comprar. Só tive a primeira roupa ou calçado de marcas reconhecidas após começar a trabalhar.

Como caracteriza a sua alimentação actualmente? Acha que a mesma tem mudado ao longo dos tempos tendo em conta a modernização que a própria alimentação tem sofrido?
Desafortunadamente, não tenho uma alimentação muito regulada, porque sou dado a alguns excessos. Em casa normalmente tomo o pequeno-almoço com café, almoçamos peixe e jantamos carne, ou vice-versa, a acompanhar com vinho. Sempre que posso “adoro” doces e guloseimas. Há algum tempo atrás acompanhava quase tudo com batatas fritas ou arroz, porque não gostava verduras, nomeadamente saladas e legumes. Quando vamos ao restaurante abuso em gorduras, queijos, doces, etc., mas nos últimos tempos tenho corrigido algumas situações. Com os alertas que vêm da parte das entidades que regulam a saúde, e tendo produção própria de frutas e legumes, tenho vindo a substituir os acompanhamentos. Mas ainda não consegui reduzir as quantidades ingeridas!

 

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