O envolvimento de potências ocidentais no Médio Oriente vem de longe, devido a considerações geopolíticas associadas à exploração de recursos naturais, com relevo para o petróleo e o gás natural. A britânica Anglo-Iranian Oil (1935, ex-Anglo-Persian de 1909) e a saudi-americana Aramco (1938) são expoentes da exploração de hidrocarbonetos naquela região do globo, incidindo especialmente no Irão, no Iraque e na Arábia Saudita. Quando o esforço de guerra exigiu grandes reservas de petróleo bruto, após o início da II Guerra Mundial, os olhos cobiçosos anglo-americanos focaram-se com maior intensidade naquela produção vital. Deste modo se explica a sucessão de conflitos que, depois de 1945, assolaram sobretudo o Irão e o Iraque, começando pela guerra entre estes 2 países, que durou 8 anos (1980-88) e causou pelo menos 500.000 mortos, embora algumas estimativas apontem para o dobro. Os interesses por detrás da guerra foram tais que o Iraque teve apoio de 7 países (URSS, EUA, Arábia Saudita, Singapura, Itália, Reino Unido e França) e o Irão de 2 (URSS, que fez jogo duplo; e Israel, hoje seu arqui-inimigo). Os iraquianos de Saddam Hussein tiveram uma ajuda próxima de 50 bilhões de dólares por parte da Arábia Saudita, Koweit e Emiratos Árabes Unidos – o que não impediu Saddam de invadir o Koweit 10 anos mais tarde.
Neste jogo de xadrez mortífero, para além das centenas de milhares de mortos, foram destruídas estruturas e patrimónios de valor incalculável. O pior, é a memória que ficou nesses povos de civilização mais que milenar, como a da Pérsia/Irão, ou do Iraque, onde o delta do Shatt-al-Arab reúne os rios Tigre e Eufrates da antiga Mesopotâmia. Uma pessoa amiga que adora viajar, testemunhou-me a surpresa que teve, quando há 3 ou 4 anos visitou Teerão e reparou no “welcome to Iran” com que os estrangeiros são saudados na rua pelos locais. Uma senhora iraniana que viveu em Ponta Delgada vários anos com o marido, comentou um dia com uma cliente habitual que ao decidir vir para Portugal, a mãe comentou o que vinha ela fazer para um país pequeno e sem recursos como o nosso. Estes testemunhos, ainda que vistos por óticas diferentes, mostram como nem sempre é clara a visão que os ocidentais têm de velhas civilizações como a Pérsia, a Babilónia e tantas outras semelhantes. Olham-nas através do prisma do poderio económico-militar, esquecendo que sobreviveram milhares de anos antes da Europa e a América serem o que são nos nossos dias. E cometem erros graves que acabam por pagar caro, a exemplo do que tem sido o comportamento dos Estados Unidos.
A União Europeia tem sido bem mais sensata na condução da política externa, certamente por experiência própria, mas também por perceber que a “diplomacia da canhoneira” tem os dias contados no mundo atual, o que torna as trapalhadas ameaçadoras do Presidente Trump em verdadeiras “trumpalhadas”. Com o ressurgir da Rússia no plano internacional, acompanhada de uma China que rivaliza com europeus, americanos e russos no tabuleiro global, falar grosso a aliados e inimigos por igual só pode dar mau resultado. No caso iraniano, os Estados Unidos de Mr. Trump deviam recordar-se do falhanço trágico da Operação Tabas (Eagle Claw, para os americanos) em Abril de 1980, destinada a resgatar 52 funcionários da Embaixada, mantidos reféns em Teerão. O resultado do desastre, onde morreram 8 militares americanos, foi talvez a principal causa da derrota eleitoral do Presidente Carter. No Iraque, na Líbia, no Iémen, mesmo no Afeganistão, as “primaveras” americanas, muitas vezes com apoio de países europeus, deram em descrédito e fracasso. No caso da atual situação iraniana, pode ser pior.
Afonso de Albuquerque, o almirante português que há 5 séculos desenvolveu a “política dos estreitos”, ocupou Ormuz porque sabia o que isso significava para o controlo da navegação. Hoje, esse controlo é ainda mais essencial, porque pelo gargalo do Estreito de Ormuz passam superpetroleiros transportando 30% do petróleo mundial, a um ritmo diário superior a 15 milhões de barris. Se algum dia um conflito colocar uma rolha no gargalo, não me parece que haja Trump no mundo que tenha saca-rolhas capaz de evitar uma crise global de proporções inimagináveis. Uma coisa é ameaçar, enviando porta-aviões ultramodernos e híper-equipados, outra é desencadear uma guerra onde será difícil prever quem estará com quem. As alternativas para evitar o bloqueio entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã são os gasodutos e oleodutos já existentes mas que ainda não satisfazem as necessidades de abastecimento. Desde que a América de Trump desenterrou o machado de guerra, tudo o que é índio anda em polvorosa, para gáudio dos fabricantes de armamento. Esperemos que haja juízo e a “trumpalhada” não dê em tragédia.