27 de abril de 2019

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A Serração da Velha

A “Serração da Velha” – uma espécie de pausa no rigor do jejum e da penitência quaresmal– era uma tradição de Portugal e do Brasil, vinda possivelmente do princípio do século XVII e subsistente em algumas localidades do continente, que procuram revitalizar esta antiquíssima festividade.
A “Serração”, que se realizava de maneira diferente de terra para terra, consistia numa cerimónia caricata, na noite de quarta-feira da terceira semana da Quaresma– a “Mi-Carême”, precisamente essa quarta-feira do meio da Quaresma, que se festejava em França e outros países da Europa, para celebrar a viragem dos quarenta dias de jejum, abstinência, recolhimento e tristeza.
No cortejo burlesco, transportava-se num carro um cortiço onde, supostamente, um grande boneco, simbolizando a “Velha” ia ser serrado. As gentes acompanhavam o desfile e, pelo caminho, interpretavam-se quadros humorísticos. Um folião serrava uma tábua, fingindo serrar a “Velha”, enquanto esta – outro folião –pedia aos berros para não ser serrada. O povo acompanhava a encenação com gritos de “Serra a velha! Serra a velha!” Havia o “testamento”, um documento satírico onde se fazia críticas sociais, procurando corrigir costumes.
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No Diário dos Açores de 14 de Março de1896, há uma curiosa crónica, assinada por SYEBEL, sobre uma recordação histórica: “a extincta caracteristica da meia quaresma” – a Serração da Velha –, “uma das derradeiras ceremonias symbolicas da religião popular [que] só existe como tradição [em Ponta Delgada], porque ella já teve o seu epitáfio na campa do abandono”.
“Esta ceremonia, pôde dizer-se que era o resto dos festins pantagruelicos, para a exhibição dos quaes a igreja, transformada em theatro, abria de par em par as suas bentas portas. Era o mysterio da idade média representado nas farsas allegoricas, cujas tradições sobreviveram, até ha não muitos annos, no seio do povo, esses classico conservador das tradições.”
“Ora, no seu periodo hieratico a ‘Serração da Velha’ foi uma festa symbolica, em que os christãos, magros e desfallecidos pelo jejum de tres semanas e meia, se vingavam d’essa quadra penitencial, cerrando a meio, dentro dum cortiço, uma pobre velha rabujenta, ao som de festivos aplausos.” 
O cronista, referindo que a sua saudosa mocidade foi coeva das últimas cerimónias da ‘Serração da Velha’, na 4.ª das quartas-feiras quaresmais, descreve-nos o acontecimento, que a população de Ponta Delgada aguardava ansiosamente.
“A iniciativa da ceremonia partia sempre dos officiaes inferiores [antiga categoria que integrava os militares com os postos de sargento e de furriel] da guarnição da cidade. A sua rigorosa e inalteravel disciplina não lhes fazia esquecer e despresar folguêdos.” 
“Um estrado, assente sobre um vehiculo rodado, tirado á mão, servia de palco a um grupo de individuos, especie de quadros-vivos. Era composto de uma velha, manietada, mettida, não em um cortiço da antiguidade, mas em uma barrica desfundada; de um phariseu firmado a uma escada; e de um carrasco empunhando a serra fatal. Numeroso cortejo, brandia archotes a chammejar resina e alcatrão – parece que para maior solemnidade a ceremonia precisava de phantasticas trevas da noite.”
 “E assim, esta procissão grotesca, percorria as ruas da pacata cidade, que n’aquelle dia se permitia fazer uma quarta-feira gôrda, dando feriado ao peixe fresco, á abrotia escallada e ao bacalhau.”
“Ainda como revivescencia carnavalesca havia quem pregasse a sua peça, fazendo constar que a serração se effectuaria no Pico da Castanheira. Isto levava ao sitio muito papalvosinho, de cadeira ás costas; mas, está bem de ver, o lôgro era completo, porque, após o seu passeio, a “velha” e o seu cortejo lá ia de portas a dentro do quartel de S. João.”
 “Não pôde a minha memoria escudrinhar o ultimo anno d’aquella ceremonia, n’esta terra; creio não errar affirmando que vão decorridos bons 40 janeiros.”
Este cálculo remete para meados do século XIX as últimas representações da “Serração da Velha” em Ponta Delgada, muito provavelmente no período em que a ilha era guarnecida pelo 2.º Batalhão de Infantaria 5, como veremos.
 

Ferreira Almeida

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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