15 de março de 2019

Entre panelas e a política

A recente ida de António Costa a um programa de entretenimento que ocupa as manhãs de muitos portugueses, trouxe-me à memória outros momentos em que a fusão entre política e entretenimento aconteceu. No caso do primeiro-ministro, entre peixe e cataplanas, falou-se da vida pessoal do político, dos seus defeitos e virtudes, devidamente analisados e avalizados por familiares próximos. Também recentemente, Assunção Cristas passou pelo mesmo espaço. E antes dela, Marisa Matias, eurodeputada bloquista, teve igualmente a sua oportunidade. Passou por lá, ainda, Marques Mendes, comentador e antigo líder dos sociais-democratas. Apenas com algumas alterações na ementa gastronómica entre os três. Em relação à ementa política, não se conhecem grandes mudanças. 
Esta é uma tradição anglo-saxónica com muitos anos. A participação em talk-shows ou outros programas que aproximam os políticos das pessoas que o não são, sempre foi um desígnio que a leitura política aconselhou e a agenda mediática incentivou. Afinal, sempre ouvimos que os políticos devem ser mais semelhantes àqueles que os elegem, e menos uns seres que parecem viver dentro de uma redoma. No fim de contas, os responsáveis políticos não são mais do que cada um de nós, cuja eleição – ou nomeação – lhes permitiu ascender a um lugar de destaque e responsabilidade singulares. Até por esta razão, a intrincada ligação entre a política e o entretenimento é um aspeto positivo da nossa maturidade política e social. 
Mais ou menos descontraídos, a peregrinação a programas com audiências que não devem ser desprezadas, permite conhecer aspetos da vida mais privada dos políticos. São apontamentos que não costumamos saber através das conferências de imprensa do Conselho de Ministros, ou por via das declarações políticas feitas no plenário do parlamento. As críticas a esta aproximação prendem-se, normalmente, numa certa banalização da função, na procura do voto a qualquer preço ou, menos vezes, numa tentativa frustrada de fazer parecer igual o que é diferente. Discordo. Se algo nos trouxe o 25 de abril foi esta sensação de facto, de que é possível eleger e ser eleito, sem olhar ao nome da família ou aos estudos que se têm ou não. Por isso, quem hoje está em casa a ver António Costa a aprimorar uma cataplana de peixe em direto no programa da Cristina, poderá amanhã estar no meio das panelas, no mesmo programa, com um cargo público qualquer. 
Em janeiro de 2016, a Fundação Francisco Manuel dos Santos, publicava um ensaio da autoria do investigador do ICS da Universidade de Lisboa, José Santana Pereira, com o título Política e Entretenimento, e que começa assim: «A política está cada vez mais presente nos setores do entretenimento televisivo e do jornalismo de celebridades». Quem não se recorda da passagem de muitos responsáveis políticos por programas como o 5 para a meia-noite, Gato Fedorento ou, antes de tudo isto, o Parabéns, de Herman José. Não é de hoje que os políticos procuram demonstrar que não são autómatos a tomar decisões frias. E isso é bom para a sociedade. E principalmente para a democracia.


 

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Categorias: Opinião

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